[starttext] “Nine”, adaptação de um musical que por sua vez é adaptação de “8 e Meio”, é um enigma. Não vi a montagem da Broadway de 1982 com Raul Julia no papel principal e nem a de 2003 com Antonio Banderas. Mas, com certeza, “Nine” não reproduz a experiência sensorial de ver atores e dançarinos em carne e osso no palco (em tempos de “Avatar”, talvez fazer o filme em 3D fosse uma alternativa).
“Nine” não é um musical contemporâneo, como os excelentes “Dançando no Escuro” (Lars von Trier), “Sweeney Todd” (Tim Burton), “Todos Dizem Eu Te Amo” (Woody Allen) ou “Canções de Amor” (Christophe Honoré), que usam a nostalgia por um passado que não existe mais para discutir questões atuais. Filmes que usam esse recurso hoje extremamente não realista de personagens falando por meio da música numa época obcecada pelo real.
Apesar de parente próximo de “Moulin Rouge”, “Nine” está em outro patamar; o primeiro tinha ao menos uma “proposta”, o aspecto novidadeiro da montagem videoclípica.
Há a questão da nostalgia, mas por outro viés, o do fetiche pelo “star system” de Hollywood. O atrativo é ver Penélope Cruz, Daniel Day-Lewis, Nicole Kidman, mas da mesma maneira que folheamos os editoriais de moda da “Vogue” ou que clicamos os sites de fofocas.
Não há nada de condenável nisso, o leitor poderá dizer _e terá razão, já que isso ocorre desde que o cinema é cinema.
A própria questão do filme (um cineasta em crise criativa que não consegue escrever um roteiro) parece ser uma defesa de certa vertente de filmes sem uma espinha dorsal, da qual “Nine” pode muito bem fazer parte.
Mas o que me incomodou de fato foi ver a maneira que esse musical trata a Itália. Hoje, o próprio país, com Berlusconi à frente, não ajuda muito e passa a imagem de nação em ruínas. Mas o filme não tem viés político; se fosse uma crítica a Berlusconi, teria ainda algum mérito. A Itália de “Nine” é cheia de estereótipos; é como se fosse aquela hilariante sequência de “Bastardos Inglórios” em que Brad Pitt tenta falar “Buon giorno”. A Itália, aqui, é apenas um país exótico, “felliniano”, onde “cinema italiano” é um gênero cinematográfico, e não a produção local. O que “Nine” fala é o velho “american way” de olhar o estrangeiro.
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